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terça-feira, 6 de julho de 2010

Então:

Se tudo não valesse à pena diria que fiquei frustrada. Bom, estou levemente frustrada. Fui parar na Barra, amiguinhos, perto do Cristo. De fato, tudo vale à pena. Eu vi o mar. Estava encapelado, não havia surfistas, estava frio, apesar do sol. Foi o vento.

Teria ido até as rochas do Cristo, mas decidi que deveria dar outra volta do experimento descrito no tópico abaixo. A frustração de não ter ido muito longe, de não ter pego ônibus que nunca havia pegado, nem estado em lugares onde nunca havia ido.

Outra volta.

Primeira descida, Elevador Lacerda. Uma vez que a primeira descida da primeira volta do experimento foi na Praça da Sé, resulta que até então andei em círculos. O final da segunda volta foi na Suburbana, pouco antes de Plataforma, acho. Mas, considerando bem, tal final seria um tanto previsível. Iria fazer uma terceira volta do experimento, mas os créditos do cartão do ônibus acabaram.

Conclusões. A distância entre os pontos de ônibus é pequena, tenho que esperar passar por pelo menos dez até descer. Caminhar é ótimo, mas com ela não se pode mudar para ambientes muito distantes nem com rapidez tal que evidencie seu contrastes e semelhanças. Aqui entendi, de maneira sensível, uma das coisas que diziam os situacionistas. Seria maravilhoso se eu pudesse filmar e soubesse editar para registrar essa experiência. Quem me empresta uma câmera?

E a conclusão mais boba e talvez mais importante para mim. Salvador tem três milhões de habitantes, todos vivem e fazem coisas ao mesmo tempo, na mesma cidade. Velho!

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Experiência do dia de amanhã

Deverei sair de casa por volta das 10:00hs do dia 06/07/2010, de maneira tal que não saia com resquícios de sono.

Pegará o quarto ônibus que passar no ponto do Corredor da Vitória, sentido Campo Grande. Quarto porque nasci no dia quatro e sentido Campo Grande porque tem menos possibilidade deu parar na orla atlântica. Porque sim.

Descerá no sétimo ponto. Pegará o sexto ônibus que passar no ponto, porque nasci no mês seis. Deverá anotar o primeiro número que ler, pois este será o número de pontos que deverá passar até descer novamente do ônibus.

Deverá então pegar o terceiro ônibus que passar e descer no oitavo ponto de ônibus. Este será o ponto final.

Onde irei parar? Estou curiosa. Levemente ansiosa.

domingo, 16 de maio de 2010

Aos Poucos

A gente nunca faz a coisa certa. (no máximo) Faz a coisa certa para aquele momento.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Fui aqui no Wikipedia e vi que o Lago de Sobradinho é o segundo maior lago artificial do mundo, tem 320 km de extensão e uns 4.200 km2 de superfície. Foi concluído em 1979 e inundou as cidades de Casa Nova, Remanso, Pilão Arcado e Sento Sé e o então povoado de Sobradinho. Outro site disse que foram relocadas 70 mil pessoas.

E quantas seriam as pequenas comunidades alagadas?

Semana passada eu conheci pessoas que nasceram naquelas quatro cidades que ficaram sob o lago e que hoje moram nas quatro construídas pela CHESF. Cidades novas que pegaram a rebarba do urbanismo modernista e que herdaram o nome das suas antecessoras e o ressentimento dos antigos moradores. Todos com quem conversei falaram da inundação com denso sentimento de perda e melancolia. Quase todos falaram de pessoas que, por se recusarem a sair, tiveram que ser retiradas de barco, que tomaram veneno ou que perderam tudo e que ainda não foram indenizadas pela CHESF.

Não tenho acompanhado o caso, mas toda hora me lembrava da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, que está na iminência de ser construída.

[ai minha vida mundana...]

Fui a algumas vilas de pescadores daquelas 4 cidades e de Juazeiro. Os dias miseráveis, as pessoas “sujas de tão pobres”, a vida de bicho de alguns ribeirinhos naquele lugar belo de tanta água, naqueles ambientes tão idílicos, são um bug na minha cabeça.

Eu acredito que naquelas comunidades as pessoas são solidárias, mesmo. É evidente que nos lugares de maior carência há uma generosidade que a classe média desconhece. Mas como é que pode pessoa com sólida habitação própria, vizinha de uma que está para desabar, pedir casa, uma casa inteira, para o neto de 13 anos ou para o jovem amante que, coitado, é tão tímido que não fala com estranhos. Tem uma música de Arnaldo Antunes que pergunta “será que é só pra manter o combinado que pra ter o chupador tem que nascer o já chupado?” Mas é só uma música que eu lembrei, não estou perguntando isso. E desde que tenho consciência de mim não me decido por amar o homem ou a humanidade.

Não tem transporte regular de um lado para o outro do Lago de Sobradinho. A travessia de veículos pode ser considerada inexistente porque o único barco que a faz cobra R$ 300,00 só a ida e leva, no máximo, dois carros por vez. E, pela largura do barco, metade da roda do carro fica do lado de fora. Por causa disso, a gente teve que programar sete dias de viagem por cinco municípios a partir dos dois únicos dias que tinha barco para atravessar o lago de Remanso para Sento Sé.

Atravessamos, numa sexta-feira, para ir na última cidade do roteiro – Sento Sé. Estudei a água que tinha entre mim e o barco, esperando aparecer o que é que nos levaria até ele. Nada. Quase acredito que o cara que tinha levado minha mala também nos levaria no colo. Putz, melhor tirar o tênis, levantar a barra da calça e ir pro barco. Foi pitoresco ir pro lugar de trabalho num barco carregado de madeira, telha, uns 30 bodes na entrada do banheiro (tinha banheiro!), colchão, sacos de pipoca Guri, panelas, etc, etc.

Não estava ventando, atravessar o lago foi uma das recompensas da viagem. A água estava com uma textura de seda. Passamos pertinho dos dois reservatórios que marcam onde estava Remanso velha. Tinha perguntado a Danduca, quem nos acompanhou em Remanso nova, como é que eles ainda não tinham desabado. Ela foi enfática: “não, não desaba não, aquilo é um símbolo. Um entortou, mas não desaba não. Às veiz vai um pescador lá, arma uma rede e dorme lembrando. Não desaba não.”

Não tem artista que conceba melhor monumento às cidades que desapareceram do que aqueles reservatórios. Nunca vi monumento mais carregado de melancolia e resignação do que eles.

Hora e pouca de travessia, já depois dos reservatórios, desligam o motor, ninguém diz nada. Vão encostando o barco numa ilha, num lugar sem sinal de civilização. O dono do barco desceu na água para empurrá-lo e pensei por uns dez minutos que ali era o desembarque. Mas então o dono começou a descarregar os bodes. Espetáculo! Cada vez que vejo uma situação dessa, para mim nova em todos os sentidos, se abre um mundo do que ainda falta eu ver. Como é que pode, até hoje, eu nunca sequer ter vislumbrado que um caso daquele poderia acontecer e ser bem comum?

As pessoas que nos acompanharam pelas vilas faziam questão de nos mostrar as mulheres tecendo rede de pesca. E se mostravam satisfeitas quando nos viam fotografando aquelas cenas. A tecitura das redes me pareceu sintetizar relações entre atividade produtiva, estrutura física da casa, espaço público, questões de gênero e de vizinhança. Aos meus olhos adaptado ao fabricado, principalmente ao fabricado do outro lado do mundo, aquele trabalho é encantador. Mas é bom dizer que muitas mulheres estavam com LER por causa dele.

Na vila de Aldeia, em Sento Sé, nos apresentaram a João, um senhor que comanda a Festa do Marujo na comunidade. Quando estávamos conversamos com pessoas de lá, ele pediu para que os moradores tivessem cuidado onde construíssem as casas, que era “pra deixar um lugar para uma praça”. Em nenhum lugar que eu fui uma pessoa tinha demonstrado preocupação com o espaço de sua comunidade com tanta espontaneidade. Isso me aqueceu o peito por agradáveis horas.

Teria muito mais para contar sobre esses lugares ao redor do Lago de Sobradinho. Das crianças que sempre iam atrás da gente e daquela que pegou forte e de surpresa nos meus dedos indicador e médio, dos lugares onde a eletricidade era transmitida por arame farpado (gato, claro), da sensação de andar por aquelas cidades, digamos, modernistas. Mas deixa pra lá. Esse texto já tem que ser abandonado.

Só uma última coisa. O Lago de Sobradinho, aquele alargamento do Rio São Francisco no mapa, antes de dividir a Bahia com Pernambuco, tem quatro dimensões.

domingo, 8 de novembro de 2009

Bienal em SP

Então fica combinado que esse é para melhor fixar na minha memória.

Tô exausta, quase não consegui pôr meu pé esquerdo no chão quando acordei nesse dia de branco. O dia pós viagem é muito dificultoso explicar, é realmente quando estou entre duas cidades, entre duas... ou melhor, entre combinações, jeitos e escolhas de ver e lidar com tudo o que está perto de mim. Mas isso é muito fugidio, feliz ou infelizmente, sei lá...

Fui lá, ver a bienal de arquitetura, que não despertou nada de novo em mim. Eu ingenuamente pensava que bienal era para trazer, pelo menos, uma discussão controversa, uma polemicasinha e tal. Mas ela me vem apoiada em quatro palavrinhas que parecem putas velhas que já serviram pra tudo quanto é trabalho. Opa!, sem querer desmerecer o meretrício.

A exposição dos holandeses pareceu ser interessante, mas ainda não li o segundo caderno para entendê-la melhor. Os alemães foram pretensiosos e, como bem observou Leo, cheios de clichês. Acho que os cinco países da África, que expuseram um projeto cada, estavam lá para não dar margem pro crítico sem criatividade dizer que só temos olhos para a Europa e blá, blá blá, e também por causa da Copa (hum.... se bem que a África do Sul não expôs... mas é tudo África, não?). Falando em Copa, a exposição dos projetos para esta estava lá, mas, na moral, não existiu. Tinha uma dúzia de painéis e uma reprodução de arena que só poderia ser para as crianças.

Eu gostei muito da exposição de uma universidade de Hong Kong (perdoe, não lembro o nome). Eles estão mostrando trabalhos interessantes sobre tipologias desenvolvidos por alunos. A exposição de arquitetos brasileiros foi convencional: dois painéis e uma maquete para cada. E os projetos que vi são coisas do tipo que saem na AU ou na Projeto. O Governo do Estado tinha um espaço apresentando projetos que, numa olhada superficial, pareceram interessantes, principalmente a Companhia de Dança de São Paulo. A Prefeitura tinha um espaço também, mas o que ela apresentou foram aquelas casinhas iguais enfileiradas. Os demais, nada... ou eu não olhei ou não se fixaram na minha memória.

São Paulo é muito sedutora e andando por lá é preciso manter o foco. De tanta sedução – exposições, roupa, comida, música, livros, coisinhas exclusivas – estou criando uma convicção: a meta de minha cidade não pode ser oferecer o que São Paulo tem, senão estamos perdidos. Simples assim e não posso esquecer.

E uma convicção que já tinha se consolidou naquela cidade. Albergues são bem mais legais que hotéis. E, como o ENEA (Encontro Nacional de Estudantes de Arquitetura) me preparou pra vida, em situações de exceção como é uma viagem, eu abdico tranquilamente do quarto com banheiro pelo clima de comunhão dos albergues. Apesar disso, o hotel em que ficamos foi interessantíssimo. Ele nos apresentou um conceito inovador, revolucionário para os mais entusiasmados, de, digamos, abrigo. Os hóspedes têm oportunidade de desfrutar não de um quarto, mas de um banheiro com cama!! Tendo apenas o vaso sanitário enclausurado, tem-se chuveiro, pia e cama no mesmo espaço, é uma maneira totalmente super-nova de pensar o que é dormir e o que é higiene! Veja você, isso podia estar na bienal!! Gênios gênios gênios.

Muitos amigos e conhecidos também foram à SP ver a bienal e outras coisas. Numa conta rápida, tinham umas 16 pessoas. Encontrei também um amigo que conheci em Granada, e, velho, muito, muito estranho ver ele em São Paulo, fora daquele contexto do intercâmbio. Parecia que ele estava no cenário errado.

Apesar de ter perto pessoas que eu gosto muito, acho que 60% do tempo preferi ficar só. Basicamente por diferenças de prioridades e/ou interesses no que ver em SP. Velho, eu estou ficando cada vez menos flexível para abrir mão do que eu quero ver numa cidade. Mas, também, de noite era fundamental eu encontrar as pessoas, pra, de repente, tomar umas.

Ah sim!, você já tinha visto fila em banheiro de livraria? Isso pra mim era coisa que não existia.

sábado, 26 de setembro de 2009

Salvador

As coisas vão se agregando, acumulando e ganhando significado.

Não tenho muita vontade de ir ao miolo ou na orla atlântica de Salvador. A atmosfera úmida daqui não me faz querer ir lá. Mas vou. O miolo me parece muito uniforme, muito quente e sufoca. Quando falo uniforme me refiro à grande escala. Tsc, que me matem! Enfim, meu campo de visão lá é muito curto, não existe horizonte, chego a sentir os fios de energia se enrolando em mim.

No atlântico o ar é difuso, entorpecido. As coisas são meio superficiais, aeradas e o horizonte é aquilo mesmo que o define. É uma linha horizontal, inalcançável e inerte que separa tons de azul. O Atlântico é belo, sem dúvida. Mas o belo óbvio não aprisiona.

Mas a Baía... mas-a-baía... Quando vou por lá tenho impulso de gritar nos soteropolitanos que Salvador NÃO é uma metrópole, Salvador NÃO é cosmopolita. Fico repetindo essas coisas na cabeça, involuntariamente.

Os ferros, as paredes úmidas, os esgotos, a topografia, as ilhas, as feiras, os infinitos horizontes. Mariscagem, meu Deus, a mariscagem... de onde vi, as pessoas viraram pedra para catar marisco. Isso me enche tanto os pulmões que transborda pelos olhos. Venho me apegando a estes horizontes para tentar entender Salvador e outras coisas. Ou pelo menos eu quero acreditar que venho me apegando a isso.

Acho (e apenas acho) que o que torna Salvador única e congruente é que no momento em que dou o passo para voltar para casa sinto mais ou menos a mesma coisa, qualquer que seja o lugar de para onde eu tenha ido nessa cidade. Alívio, superficialidade e fé.

E a merda, pensei um dia depois de ter ido pela Baía e enquanto tomava açaí, é que Salvador não cabe numa colher.

domingo, 5 de julho de 2009

Santo Antônio

A descrença é, hoje, impossível pra mim. Longe de ser por determinação filosófica ou fé, acho mesmo que por condicionamento e hábito. E, também, porque algumas crenças me dão prazer e me salvam.

Tinha um boteco perto do CEFET, onde fiz o ensino médio, que ficava no Santo Antônio. De vez em quando, só pra não ir de novo no bar dos Micos, a gente ia pra lá depois da aula, sempre já de noite. Era bom o caminho até lá, porque era muito misterioso. O percurso era muito escuro, e, pouco antes de chegar ao bar, a gente entrava num beco estreito do lado de uma igreja colonial enorme. Adorava o tom de mistério do caminho. Parecia que estávamos caminhando no século XVII e íamos nos bater com Gregório de Matos (li pouquíssima coisa dele, mas sempre penso nele quando me lembro daquele caminho).

Um dos pensamentos que, Deus sabe por que, sempre me vem é o fato de eu não saber qual era exatamente o caminho que a gente fazia do CEFET para o bar. Este me ocorre, sem incomodar, desde que saí do CEFET.

Então, querendo dar certa produtividade ao meu ócio, dentre outros motivos ainda não mencionáveis, resolvi a uns trinta dias que iria tentar refazer o caminho do CEFET até o bar do Santo Antonio, tentando passar pelo beco. Ia fazer o caminho de dia, porque resquícios de prudência me restam e não sou doida de andar sozinha no século XVII.

Eu desci do ônibus em frente ao CEFET e foi inevitável não pensar em mim quando cheguei naquela escola pela primeira vez (acompanhada de minha mãe). Sorri com a boca fechada, cruzei os braços, encolhi os ombros e um sentimento morno e confortável veio. Também me senti pretensiosa e cheia de certezas (!).

Fui descendo pelo Barbalho, sem me preocupar em achar logo a rua que a gente subia pro Santo Antônio. Rua de asfalto sem passeio, carro de fruta, oficina, passeio cheio de carro pra consertar. A ladeira de paralelepípedo que sobe pro Santo Antônio e o ponto onde eu pegava o Duque de Caxias para ir pra casa (só em pensar nesse ônibus me dá sono). Subi o Santo Antônio. Fui indo, fui indo, e, contra o que eu esperava, encontrei rápido a Igreja enorme, o beco, e, fiquei surpresa, o boteco ainda tava lá, com aquela varanda super-estreita. Me veio uma satisfação de dever cumprido. Pronto, fiz, podia colocar o pensamento no bolso e esperar outros.

E aproveitando que estava naquele lugar tão bom de estar, fiquei andando mais um pouco e fui parar, surpresa de novo, no Largo de Santo Antônio. Nunca tinha chegado lá por aqueles caminhos. O Largo estava lotado de gente e carro. Putz, era dia de Santo Antônio! Putz, eu resolvo ir lá no dia de Santo Antônio. Véi...

Fiquei bordejando por lá, cheiro de cerveja, vi o mar, vi o porto, coloquei a cabeça no portão do Forte de Santo Antônio. Passei em frente à igreja, entupida de gente, cativante. Sentei na escada, num lugar com sol porque estava com um leve frio, pra esperar a vontade de ir embora chegar. Fiquei só olhando e julgando quem passava, condescendente com uns e desprezando outros (tenho que parar com isso). Um tempo depois percebi uma coisa e antes de realmente ver e saber o que era, meu braço agiu e pegou. Peguei uma estatuazinha metálica de Santo Antônio, de uns três centímetros, que estava jogada no degrau da escada.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Foto!

Veja como nossa cultura pode ser atrasada, obtusa e prepotente. Eu aprendi na escola (suspiro) a ser condescendente com a ingenuidade e falta de conhecimento dos índios que acreditavam que seu espírito (ou algo de si) era aprisionado pelas câmeras fotográficas ou de filmagem que capturavam suas imagens. Tem até histórias da Turma da Mônica que falam disso de modo bastante cândido.

E eu levei uns dezessete anos para entender que os índios tinham toda razão. Eles estavam absolutamente certos.

Faz um tempo que, quando tiro foto de uma pessoa sem o consentimento dela, peço mentalmente e de modo quase inconsciente desculpas. Porque estou me apropriando de parte da identidade de uma pessoa (e sem dúvida do espírito dela) para um uso exclusivamente pessoal e que vai depender das minhas intenções e humores. E estou ficando igualmente constrangida em tirar fotos de coisas que, para estas pessoas, têm forte simbologia. E o pior que muitas vezes são estas coisas que são importantes registrar.

E constantemente estou ficando entre o impulso de me apropriar do que há de mágico em uma pessoa ou de algo que é construção dessa pessoa e o ensinamento de minha mãe dizendo que não se pega o que não é seu. Mas é claro que isso não é um pensamento claro e límpido que me ocorre quando tiro uma foto, é um sentimento indefinido, amorfo.

Outro dia presenciei uma cena que foi um absurdo de insensibilidade e de invasão. Uma mulher, da capital, ia tirar foto com seu celular de uma senhora de um povoadozinho. O celular não tinha zoom, então a mulher aproximou bem o aparelho no rosto da senhora. E, com uma das mãos, ficou ajeitando a posição da cabeça da senhora para ficar bem na foto. Foto tirada, a mulher saiu andando de costas para a senhora. A mulher chegou, não pediu licença, estendeu o aparelho, tocou na senhora do modo que lhe convinha (e no rosto!), e saiu sem olhar mais para a senhora e sem dizer obrigado.

Evidente que já tirei zil fotos de pessoas sem pedir permissão. Mas assim...

sábado, 25 de abril de 2009

Eu não queria escrever sobre Lençóis, sobre mais uma viagem. Porque isso tá ficando recorrente demais... Mas escreverei, basicamente porque me apego aos hábitos. E chega de explicações.

A gente foi para Lençóis no escuro. Sabíamos como chegar e onde dormir, mas, eu pelo menos, não fazia a menor idéia do que poderíamos ver além da sede da cidade. Mas foi aquela né?... eu tava lá bebendo uma cerveja, aí um amigo falou: vamo ali em Lençóis? Tô fazendo nada... então vamo, vamo nessa.

Ô cidade bonitinha, meu Deus. Adorável. Não virou uma cidade-puta turística como certas cidades que é dispensável mencionar. Ouvi pessoas dizerem que o turismo é a principal fonte de renda da cidade. Mas, lado a lado com os bares e restaurantes cujas mesas têm toalha de chita su-per-in-te-gra-das à tradição nordestina, há aquelas vendas com balcão de bloco, reparos de cimento não pintados nas paredes, lâmpada com teia de aranha e com prateleira de madeira engordurada, onde estão expostos conhaque, latas de milho verde e estrato de tomate, Pitú, absorvente, sabão em barra azul, arroz, tabaco, caixa de anador, Cortesano...

A rua onde fiquei hospedada, apesar do albergue e das pousadas que lá funcionam, não é mais que uma rua de cidade pequena, com gente conversando pela janela e cujo ritmo e cor das fachadas a tornam mais agradável e aconchegante. Em qualquer canto da cidade havia portas e janelas abertas, às vezes podíamos ver até o quarto de alguém. Isso me lembrou o quanto isso já me foi banal, e como eu, quando criança e vinha pra Salvador, fantasiava que ninguém vivia nos apartamentos, uma vez que não se pode ver o movimento destes através das janelas dos prédios. E eu realmente me espantava quando, da janela do apartamento de meu tio, via um ser-humano passando numa janela próxima. Pensava instintivamente: não é que tem gente lá dentro?

Fizemos aquele passeio que faz a rota dos cartões postais da Chapada. Saímos com uma agência de turismo e, algumas vezes, isso me fez ficar enjoada. A guia falava coisas do tipo: vamos parar em tal lugar, fazemos fotos e seguimos. Tem gente que viaja só para fazer fotos, é? Eu heim... foto não era conseqüência de um passeio? Mas, a pesar do meu preconceito, o passeio guiado foi ótimo. Mas, também, impossível algo ser ruim quando se tem as paisagens da Chapada. Impossível.

A gente foi na Lapa Doce, que é, veja bem, uma gruta e não uma caverna (você sabia que tem diferença entre gruta e caverna? Eu não). Quando fui entrando na gruta me senti indo pro reino de Hades. Adorei! Lá dentro, em determinado momento, todas a luzes foram apagadas e todo mundo ficou em silêncio. Nem de olhos fechados podemos ter uma escuridão daquela, e isso não é força de expressão. E eu me senti excepcional, me senti muito, muito bem. Mas eu teria que estar lá, para tentar escrever o porquê disso.

Depois, avançando na gruta e de novo com luz, entramos num salão que geometricamente nem era tão grande, mas me deu a sensação de ser descomunal. Eu tive, naquele espaço totalmente cerrado, um sentido de imensidão, de coisa inalcançável e de minha insignificância corporal muito mais forte e física do que a vastidão quilométrica do horizonte e do céu que vimos, poucas horas antes, de cima do Morro do Pai Inácio. E isso me intriga deveras.
.
Senti que a Chapada é inesgotável. Essa viagem não me deixou nem um pouco saciada. Quero voltar para rever os lugares que vi (e principalmente o que não vi no escuro da gruta) e de novo voltar para ver os lugares que ainda não fui.

A quantidade de maluco-doido por metro quadrado de Lençóis só é menor do que em Granada. Falo dos viajantes que vivem, aparentemente, da arte que fazem. Se eu fosse antropóloga faria uma tese sobre eles. E se essa tese já existe, adoraria lê-la. O que leva as pessoas optarem por esse tipo de vida? Como vivem exatamente? Me intriga como é possível ter o desapego necessário para viver sem vínculos. Eu, que passo quatro dias numa cidade agradável e já me dói deixá-la.

Tenho duas hipóteses a respeito desses maluco-doidos: a despeito de, novamente aparentemente, serem mais abertos e livres, não é simples alguém se aproximar deles além daquele momento em que eles oferecem a mercadoria. A segunda é que, se eles aparentam aceitar todo modo de vida, acho mesmo é que eles nos desprezam. Talvez porque precisam de pessoas como nós para comprar coisas que pessoas como eles fazem. Talvez sintam até enjôo quando se aproximam de nós.

Juntei o útil ao agradável e, depois de vadiar na Chapada, fiz visitas para ganhar o pão de cada dia em lugares de lá. Precisamente em comunidades remanescentes de quilombos. De fato, a Chapada é inesgotável. Ouvir as pessoas contarem a trajetória da família até ela chegar ali é ver história por dentro. Conhecemos um rapaz que disse ter encontrado um acampamento de garimpeiros do período áureo da extração de diamantes e também pinturas rupestres desconhecidas. Claro que isso pode ser história de pescador, mas eu adoro imaginar que isso de fato aconteceu.

Acho que vou começar a colecionar os jeitos que as pessoas têm de dizer as coisas. Veja essas que ouvi lá e que me lembro: dismintidor: qualquer coisa pra colocar o osso que você torceu no lugar; bramura: brabeza; filho de pegação: criança que você fez o parto; viaja mais que pensamento ruim: sem tradução.

Para terminar, porque a preguiça me já me afeta: ir nesses povoados do interior é ponderar o que de fato é necessário para viver. É ver como é incabível o tanto de lixo que a gente produz para comer, por exemplo, uma oferta na Mcdonalds. Nós somos muito doidos, muito estranhos... fico pensando no tanto de energia humana e material gasta pra fazer um shopping. Pra que isso tudo que rodeia a gente, meu Deus?

quarta-feira, 25 de março de 2009

Tava voltando pra casa, atravessando o Corredor da Vitória, o que sempre me é muito agradável, mesmo depois de um dia quente. Tava quase chegando ao fim da Vitória e vejo dois porteiros, ambos de colete à prova de balas. Afe, que é isso?..

Mas fui seguindo, recuperei meu pensamento e fui seguindo. Meia dúzia de passos depois reparo num prédio que para entrar é preciso passar por dois portões. A criatura entra e fica entre dois portões antes de entrar no prédio. Fica numa jaula, na verdade. Purra!.. Que é isso?...

Porém eu sou otimista. Acho mesmo é que o colete é para justificar o preço da empresa de segurança. E uma pitada de marketing pessoal. Da jaula... maluquice, ora.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

[respiro]

O que você consegue dizer de uma cidade? Você consegue dizer, sem peso nenhum, “gosto ou não gosto” de tal cidade? Não consigo. Posso dizer de umas poucas cidades (na verdade só de duas, pelo que eu me lembro) não gostei, mas assim de um modo amarrado, cheio de atritos. É mais fácil dizer que não gostei de alguém do que de uma cidade. Às vezes dominar uma cidade desconhecida é mais difícil que conhecer uma pessoa. Aliás, não se domina uma cidade desconhecida. Tsc...

Meu querido amigo, fui recentemente a certos lugares cheios de coisas fáceis de serem criticadas, cheios de fáceis elogios. Vamos a eles.

Porto Seguro... Porto Seguro é uma cidade idiota, até onde eu pude ir. Mas, também, ela não me deu oportunidades de ir muito além, sei lá de quem é a culpa.

Por exemplo, a tal rua Passarela do Álcool, que já é um nome pra chicleteiro ver. Fosse uma rua qualquer na cidade vá lá... Mas pense numa orla de ruas largas, pavimento de paralelepípedo e casas coloniais geminadas. Tudo pra ser um lugar bucólico, aconchegante. Mas pense nas fachadas dessas casas pintadas com cores berrantes e com zil propagandas de letras fluorescentes, tipo cartaz do Bom Preço. Pense num corredor formado pelas mesas nada convidativas em frente a essas casas e pelas barracas de feira vendendo lembrancinhas infames (quem é que compra garrafa com caranguejo dentro??).

Cruzamos duas vezes a passarela e nada de um lugar agradável pra tomar alguma coisa. Eu nem estava tão exigente, mas eram umas mesas de design com personalidade demais pra mim. Eu só queria um bar com mesa de plástico.
A gente passeou um pouco por dentro da cidade, fora do que a cidade tem pra vender. E aí, pasme, Porto Seguro é uma cidade como outra qualquer. Capaz até de ser agradável, se você estiver disposto. Mas a verdade é que estávamos esperando noites cheias de surpresas como no sertão, e em Porto Seguro não achamos isso em qualquer buraco. Lá tem que ir às barracas ultra-mega modernas (mas com um jeitinho bem baiano, claro). Eu até tento viver o lugar sem esperar que ele seja de determinada maneira, mas, talvez tenha percebido, não estava disposta.
Tínhamos que visitar uma área lá em Porto Seguro. Aí entramos em contato com quem de direito para ir até lá nos apresentar a área. Acontece que alguém brincou de telefone sem fio e, quando chegamos lá, achavam que Maria (fomo juntas nessa viagem) era a superintendente! Minha mão foi na boca pra disfarçar o riso!! E, quando eu vi, tinha câmera, monte de gente falando, fotógrafo, eu tentando não rir... Velho, que situação... E quando chegamos no terreno, quando eu olho pra trás tinham 11 carros (óbvio que eu contei!) e uma comitiva de gente! Só faltou banda de música. Olhei pra Maria, fiz minha “cara de coerência” (Cordeiro, Lira, 2008) e segui em frente, fazer o que??

A gente foi também em duas comunidades indígenas, Coroa Vermelha, em Santa Cruz de Cabrália e Aldeia Velha, em Porto Seguro. Juro que no início, quando soube que ia visitar esse tipo de comunidade, imaginei, no mínimo, habitações em volta de um círculo. Ignorância, eu sei. Eles vivem é como qualquer povoado do interior, com a diferença que o turismo é seu principal meio de renda.

As pessoas da comunidade que estavam conosco tinham o discurso ecológico consolidado, como todo mundo. Falo discurso porque não tive tempo de ver como era a prática lá. Porque a prática, no meu mundo, você sabe como é... Eles também estão preocupados em fazer algo que agrade aos turistas. “A gente faz umas casinhas iguais assim, pro turista chegar, achar bonito...”.
A quantidade de frutas e flores que crescem no quintal e na frente das casas deles é uma delícia. Cacau, graviola, caju, jaca, jambo, jenipapo, coco, amora, abacaxi e duzentas outras coisas que eu não sei o nome. E quando me lembro daquelas redes embaixo da sombra... meu deuso... Tive a impressão de que, se a morada deles fosse decente e eles não tivessem que se preocupar tanto com os turistas, o lugar seria perfeito. Olhe, Arnaldo Antunes tem toda razão... os turistas estragam todos os lugares.

Eu quase não fiz elogios, não foi? Ah, mas assim, fazer elogio fácil é muito chato... fica parecendo propaganda da CVC...

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

A Todas as Glórias do Sertão!

É bem verdade que eu já queria escrever esse texto antes de viajar. Pra disfarçar o motivo, vou dizer o que disse uma amiga: eu quero, porque quero, por querer.

Eu sabia de maneira quase esquecida que navegar é preciso. Agora eu entendo e sinto que navegar é fundamental. Porque eu não consigo entender o vermelho a partir das variações de suas tonalidades, eu entendo o vermelho a partir do que se contrasta a ele.

Então, navegar é preciso, e eu fui num pedaço do sertão da Bahia, não por decisão direta minha, mas porque foi precisão de força maior. E o sertão não é longe como os livros fazem parecer. Em três a quatro horas você chega lá.

Fui em Euclides da Cunha, Canudos, Uauá e Monte Santo e uns tantos povoados desses municípios. E eu consegui pensar e falar uma coisa que ainda não havia dito com maior certeza. Estão me pagando para fazer uma coisa que eu faria de graça.

Saí de Salvador com Maria, Anderson e quatro representantes da UNEB, sendo três professores e uma aluna. Aí... ai eu não sei... não sei por onde começar isso.

Paramos primeiro em Euclides da Cunha para almoçar e ter uma reunião com representantes de um povoado do município, Massacará. Meu primeiro susto: beeeem atrás da Igreja tava lá, toda pintada de vermelho uma sex shop, numa cidade de 56 mil habitantes. E logo quando entrei na cidade tinha uma padaria que o nome era “Padaria Pão Sem Drogas”. Porque em todas as outras padarias da cidade o pão vinha com drogas, claro. Euclides é praticamente uma Amsterdã.

Na reunião com os representantes de Massacará havia dois caciques dos índios Kaimbés (acho que escreve assim...). Um teria seus 20 e poucos anos e o outro devia estar na casa dos 60. Muito interessante foi a postura dos dois quanto à decisão de eles aceitarem ou não o projeto que a UNEB propunha para Massacará. O mais velho, ao final dos esclarecimentos disse logo: “nóis aceita”. O mais novo disse que só daria a resposta depois que conversasse com os outros moradores do povoado.

Depois de conversar com os Kaimbés, a gente foi para Bendengó encontrar Jotinha, que nos acompanharia na viagem até Canudos Nova. Uma figura esse cara, o jeito dele falar era uma delícia! Antes de chegar em Canudos Nova paramos em Canudos Velha, povoado às margens da Represa de Cocorobó, que inundou o sítio original de Canudos. O lugar é lindo, e eu não consegui fazer esforço para imaginar o massacre que houve ali.
Logo na entrada de Canudos Nova passamos pelo lugar de condições mais precárias da viagem, o bairro da Favela. Apesar deste lugar não estar dentro do projeto da UNEB (“turismo de fundamentação histórica e cultural”), eu e Maria paramos aí pra pegar algumas informações. Afinal, o que é turismo mesmo??

Depois fomos ao Jorrinho, junto da barragem de Cocorobó, onde reencontramos o pessoal da UNEB. E aí, amiguinho, expediente terminado, eu olho para cima e... uma puta bola gigante e amarela parecia que ia me levar! A lua cheia tava no primeiro dia, e aí era i-ne-vi-tá-vel pensar naquela música: “não há ó gente, ó não, luar como esse do sertão”.

Aliás, por falar em sertão, um parêntese: cada vez me convenço mais que os livros nos vêm na hora que precisamos. Pouquíssimos dias antes da apresentação do projeto da UNEB lá onde trabalho, eu tinha começado a ler Os Sertões. Pense numa coisa dessa... Aliás, várias coisas relacionadas ao sertão têm me envolvido nas últimas semanas. Por exemplo, assisti Deus e o Diabo na Terra do Sol e uma amiga me passou um CD de Elomar, o qual to ouvindo sem parar tem uma semana. Vai ter até show dele na sexta, bora??

Mas sim, voltando ao Jorrinho (ai meu Deus, acho que isso vai sair grande pra caramba...). Maria olha pra mim e pergunta se eu trouxe biquíni. Claro que não, ora! Ela me chama pra tomar banho no jorro. Porque não? Aí foi só trocar a calça por um short e fomos eu, ela e Anderson pra aquele banho de água gelada e de lua gigante. Pra não ser muito espalhafatosa só vou dizer uma coisa: revigorante, podia voltar pra Salvador andando!

No outro dia fomos cedo em direção a Caratacá, povoado de Uauá. No caminho de Canudos pra Uauá entendi direitinho o que disse Euclides sobre os sertões: “barbaramente estéreis; maravilhosamente exuberantes.” Canudos era lascas de pedra, cinza, vegetação esturricada. Em Uauá quase atolamos e a vegetação, cheia de flor, era de um verde que tinham acabado de pintar.

Primeira visão em Caratacá: carne de bode secando na frente de uma casa. Encontramos Gildemar, artista que seria nosso guia nesse município. Segunda visão: carcaça, pele de bode e urubus na praça principal do povoado. Ficamos pouco tempo, senti que deveríamos ter ficado um pouco mais. Entramos na casa de Seu Dedé pra dar uma olhada e terceira visão: carne de bode secando no quintal de casa. Nunca mais como bode.

Nesse povoado comecei a entender como é fácil entabular uma conversar com as pessoas daquela região. Isso por causa de um velhinho que parecia ter nascido com a idade que ele tem hoje. Você precisava ver o prazer com que ele falava comigo. Num outro povoado, Cocobocó, conhecemos D. Judite que falou de sua disposição em receber: “venha de onde vier, venha em paz”. E pense na gentileza das pessoas que conhecemos: Anderson queria comprar um doce de umbu (delícia!!) que D. Judite produzia, mas ela não aceitou pagamento. Maria perguntou se ali por perto tinha pé de umbu, porque ela queria pegar uns que ainda estavam pequenos. Não tinha. Perguntou sem pedir, mas, no caminho pra Uauá, Gildemar parou no meio da estrada e catou uns pra ela, e, claro, disse que o filho de Maria não ia nascer com cara de umbu.

Uauá, aliás, é o sucesso da Bahia! É o point do sertão! A gente foi no bar Bridas, que o pessoal da UNEB já conhecia. Chegando lá fomos apresentados a S., que é a bicha mais bem amada que eu já conheci. E o repertório foi maaaaaaassa, o DJ ia de Pink Floyd à tchuco tchuco. Você já ouviu a dança do estrupa?? “estrupa, estrupa, estrupa quem tá de amarelo!, estrupa quem tá de vermelho!!” Divertidíssimo, mas juro que consegui manter meus princípios! E nem me olhe torto porque tenho certeza que teu passado também te condena! Bem, se não condena, sinto muito.

No outro dia, apesar de tudo, estávamos lá, firmes e fortes indo em direção a Monte Santo. Paramos primeiro no povoado de Acarú, onde encontramos Ana, D. Júlia e Seu Dedega. Lá existem dois casarões preciosos! Eu não posso acreditar que o IPHAN não os conheça! Um tá melhor conservado porque uma família o ocupa faz 40 anos. Em frente a esse, o terreiro primorosamente varrido era um caso a parte. Aliás, as pessoas da roça no geral têm a frente da casa muito bem varrida e as panelas muito bem areadas. O segundo casarão era um abandono só. Não tinha a porta da frente, mas dava pra ver que era mais requintada que a outra.

No caminho de Acaru para Monte Santo D. Júlia (a olhei diferente quando ela disse que plantaria as sementes que tinha catado no chão em frente à Prefeitura. Pensei: num lugar público??) nos fez o favor de contar um pouco de sua história. Foi o que mais me emocionou na viagem e eu tenho que guardar essa história o máximo que puder. Não dá pra eu escrever o que ela disse, porque eu iria empobrecê-la drasticamente. Pra entender a história de D. Júlia tem que ouvir ela falando com os olhos rígidos, o peito um pouco ofegante e com a voz suave que se deixou embargar uma única vez e de modo quase imperceptível. Só acho que tenho que dizer que D. Júlia, 60 e poucos anos, de olhos belamente azuis, aprendeu a escrever em folha de incó (um mato que tem lá) e com espinho de mandacaru, perdeu a memória duas vezes e se formou na Universidade Federal da Bahia. Ela arrematou a história dizendo mais ou menos isso: eu tô contando isso pra vocês porque tudo (enfatizou o “tudo”) o que eu puder fazer pra quem tá precisando eu faço. Quando nos despedimos, ela me disse com voz mais suave e mais baixa, tocando de leve no meu ombro e me olhando daquele jeito: “não esqueça de mim não”. Deus...

Tenho que falar também de Seu Dedega. Eu quero um Seu Dedega de natal, eu quero! Você já assistiu Deus e o Diabo na Terra do Sol? Pois ele fez o papel do noivo que foi capado. E nós passamos com ele em frente ao lajedo que Glauber Rocha usou como palco no filme.

Seu Dedega é da elite de Monte Santo, mas de uma simplicidade e poesia que encantam. Ficou claro que havia uma grande cumplicidade fraternal entre ele e D. Júlia. Numa hora em que estávamos tratando de burocracia, ele fala que quando era menino gostava de sair correndo atrás dos redemoinhos para ver se ele conseguia voar. Poesia pura, e eu pensei imediatamente que eu morria de medo de redemoinhos.

No centro de Monte Santo um crime. Me colocaram uma concha acústica gigante que tapa e polui a visão do monte e da igrejinha que fica no topo dele. Como permitem? E tem também casa de três andares ajudando na poluição do lugar.

A última noite nós passamos em Euclides da Cunha, Amsterdã dos Sertões. E quem disse que domingo de noite não tem nada pra fazer no interior?? A praça da cidade tava lotada, e tivemos direito a ver briga de duas irmãs por causa de um cara. A praça in-te-i-ra vaiou ele! Fizemos uma coisa completamente fora de propósito. Tinha vários cartazes nos bares dizendo que naquele dia seria a entrega de prêmios do Festival de Teatro Não-Sei-Que. Pois lá fomos (eu, Maria e Anderson) pra tal entrega. Quando a gente chega, era uma coisa super pequena, apenas para conhecidos. Quando entramos TODO MUNDO vira a cabeça pra nós. Nem eu sabia o que eu tava fazendo lá, mas o jeito foi respirar e sentar o mais rápido possível. Ficamos até o final, foi massa ver a animação das crianças recebendo o prêmio e eu nunca bati palma com tanto gosto.

Xô ver se tem mais alguma coisa pra falar... ha!, tem sim! Nada como uma viagem para as pessoas te cativarem. As companhias de Maria e Anderson me expandiram.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Hoje eu tava no Campo Grande, fazendo nada na verdade. Andando e esperando o dia sem pressa. Eu andando, menino sentado, casal passando.

Na esquina da Rua Banco dos Ingleses estava um menino, roupas sujas, sentado num colchão dobrado que dava nojo a pessoas como eu, recostado no poste e chupando um pirulito, desses redondos e de linhas coloridas. Evidentemente já se imagina o menino preto, e o era.

Questão de segundo, aparece um casal jovem, e o homem, barbudo e de dentes encardidos, dobra o corpo e pede o pirulito ao menino, que estava provavelmente em suas primeiras lambidas. O menino dá o pirulito como se estivesse dizendo as horas. Chego a ouvir uma repreensão da mulher para o homem quando ele pega o pirulito.

Não retardo o passo, mas paro do outro lado da esquina pra olhar de novo o menino. Parecia que ele já nem se lembrava do pirulito.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Eu entendi Salvador. Um pensamento que me veio, sem aprofundamento e sem reflexão. Eu entendi Salvador antes do pensamento e da reflexão, por isso mesmo entendi. Estou começando a dominar essa cidade, o que me faz sentir segura de não sei quê. Salvador começa a ser minha, do jeito que eu quero, dentro de minhas possibilidades, claro.

Eu vi Salvador de um jeito que me despertou de novo a vontade de comer, comer bem grande. A primeira vez que vi, um susto, só acelerou a respiração e veio do joelho até o peito a vontade. A segunda vez, vi porque quis e porque me arrisquei, assentou as coisas nos meus olhos e eu já tinha respirado o que havia pra respirar. A terceira vez, eu entendi salvador, um pensamento só.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Eu realmente detesto o Cabula... Contra a minha vontade, mesmo. Aqueles restaurantes de comida por quilo dos mini-shoppings cor-de-rosa, a entrada do 19° BC, a confusão do Bom Preço, a parede azul e branca do Colégio Ômega, a Uneb... Hugh! Detesto aquela avenida pela qual se chega à Uneb.

Por meses passei pela Silveira Martins num estado de indisposição sufocado pelo pensamento de que isso ia passar. Aliás, como tudo o que me incomoda. De manhã passava pela avenida num sono que me paralisava os músculos e fazia minha cabeça doer porque a aula na Uneb começava às 7:30. De tarde, calor me detonando, aumentando minha fome, ônibus cheio e uma hora até chegar em casa, engolir comida e ir para a faculdade de arquitetura. Como previsto isso passou, pois que deixei a Uneb, o que, além de aumentar minha culpa social, paralisou na minha boca aquela indisposição quando passo pela Silveira Martins.

Mas no sábado meu objetivo não era a Uneb, era o que estava atrás dela, a Engomadeira. Antes de aí chegar, tive do alto a perspectiva da Estrada das Barreiras, onde pude ver até longe, o que me fez respirar fundo e sentir bem. Vi sujeira, desorganização, cores encardidas. Pergunto-me agora, de um modo desestruturado, acerca do que é bonito numa cidade. O panorama não era bonito, mas era agradável. Agradou-me. Era bonito de uma maneira que me expandiu. Ai meu Deus, minha cabeça está pedindo que eu busque noções do belo, mas não sei se vou ter saco de ir além do Google. Mal de minha geração.

Primeira à direita, Engomadeira. Carro, carro, gente5, farmácia10. Passou um carro da polícia, gostei, mas, logo, rhum... sei não... isso daí...

Fui seguindo a rua, movimento diminuindo, entrei em algumas ruas locais, apenas naquelas onde podia ver crianças, senhoras ou roupas na varanda. Numa dessas ruas, uma mulher, cigarro na mão e barriga de fora, disse "não-sei-que-lá polícia". Rhum... Passei em frente ao que me pareceu serem dois terreiros. Todo lugar que me prometia ver um verde ou um panorama do alto ou que faltava um pedaço, me atraía. Mas não pude ir a 1/3 deles.

Saí de uma das ruas locais, voltando à Rua da Engomadeira, para então pegar o caminho da roça (ainda se diz isso?). Antes entrei num mercado para comprar água (R$0,30 o copinho, nunca vi tão barato!). O caixa deixou meu pedido no ar e saiu com semblante sério para ver dois carros de polícia que tinham passado. Só ouvi uma pergunta dispersa: “fechou a rua?”. Quando ele voltou não estava com cara de que me responderia alguma coisa, então peguei a água e saí. Vi que os dois carros haviam fechado uma rua transversal à Rua da Engomadeira. Mas, excluindo a presença dos policiais, todo o restante estava normal, talvez aparentemente. Entrei numa farmácia (tava mesmo precisando de manteiga de cacau) e o vendedor era dos que gostava de falar sobre o que o rodeia. Disse que há cinco dias um policial tinha sido assassinado ali pertinho e que os policiais estavam procurando traficantes. Disse também que ali não havia assaltos, mas tinha briga de traficantes. Ai meu Deus... Deixei o dinheiro da manteiga e segui o caminho da roça. Olhe, só digo uma coisa: “Deus protege os bêbados, as criancinhas e os distraídos” (Leo, 2008).

Ah!, quando chego na Rótula do Abacaxi, percebo que a manteiga de cacau tinha ficado na farmácia.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Digníssimas senhoras da Graça

Ai ai... as digníssimas senhoras da Graça. Eu as vejo e imediatamente me vem à cabeça a frase, num modo de constatação: digníssimas-senhoras-da-Graça. Sempre foi assim, desde que estou em Salvador. Passaram-se os anos e confirmei cabalmente que não existem as digníssimas senhoras da Pituba ou de Brotas, por exemplo. Isso não quer dizer que as senhoras destes bairros não sejam dignas, absolutamente.

Mas estas digníssimas senhoras da Graça... perdoe a repetição, mas não dá para não fazê-lo. Certamente eu ia perder ponto no vestibular. Não sou propriamente curiosa a respeito delas, mas sei lá, por que só as vejo aqui? Elas são para mim um emblema movente, aparecem e magnetizam minha atenção como nenhum outro tipo. Talvez porque só existam neste reduzido espaço de Salvador e por eu não ter podido, a força de sempre ter morado na Graça desde que saí de Cruz, identificar o tipo que só existe no Cabula ou na Paralela. Se bem que agora na Paralela não vivem tipos, só atores da Globo. Aliás, parece mesmo é que na Paralela todos os edifícios estão vazios. Bem, isso não é para agora.

Voltando: estas muy dignas senhoras andam de ônibus, a pé ou de motorista com a mesma inflexível compostura horizontal. Porventura pertencem a famílias ricas ou se casaram com rapaz remediado e desde os anos 70 cozinham o tempo. Para algumas destas senhoras Paripe é um balneário fora de moda há muito tempo. Para outras é muito complicado chegar lá, dizem que tem que pegar a BR.

Me parece (menos um ponto na redação) evidente que nunca trabalharam fora de casa. Porventura foram discretas ativistas políticas, de cultura um pouco superior à média soteropolitana e atentas a modismos um tanto extravagantes. Passado o tempo casaram-se, como é de praxe, e acharam lindo quando o filho entrou para o Grêmio do Vieira.

Nunca usam jeans. Normalmente usam calça ou saia sem estampa, em tom pastel, e camisa estampada com grandes figuras. Usam bijuterias douradas, às vezes dourado e preto, muita base, cabelos pintados imóveis e muito esticados para trás. O porquê de não usarem tintura em tons escuros eu não sei. As mais determinadas usam grandes óculos de sol e grandes unhas vibrantes. Essas sim sabem dar ordens a quem restou para ouvi-las.

Evidente que senhoras de outros cantos de Salvador vestem-se assim. Mas a combinação desta indumentária com um seguro ar de superioridade, com uma altivez que só se sustenta pela memória e com um semblante que traz um calmo orgulho de algo que se perdeu nas quinquilharias que guardam em casa, isso meu caro, só nas digníssimas senhoras da Graça. Pegue o ônibus Graça-Praça da Sé ou passe na Farmácia Santana e veja. Ou talvez não... faz tempo que eu não vejo uma digníssima senhora. Ademais, depois que escrevi, já não sei quem são as digníssimas senhoras da Graça.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Menos de dois reais

Desespero. Pequeno, preto, em osso, cabeça numa direção, olho na outra, peito apressado, convulsivo. Desespero desaguou em mim, minhas mãos e conjecturas nos bolsos, depois de cinco palavras. O desespero e o medo dela não agüentaram cinco palavras. Como vou pro Campo Santo? Vai de ônibus? Olho baixa, não tenho. Graça – Campo Santo, não articulo pensamento, vou colocar a senhora num ônibus, vou pro ponto errado. Se acalme, se acalme, minha voz tinha que sair firme e segura. Mas eu tremendo. Pés dela todo partido, andou o dia todo, eram quase dez da noite. Meu filho sem comer. Chorando sem compasso. Pedi informação à moça, fugiu – como se eu fosse um bicho – a voz dela apertada, ela sem entender, eu confusa. A senhora conhece Salvador, ela pergunta. Sim, reticente. Além do SAMU, da polícia, do Corpo de Bombeiros, que, que, quem pode fazer o transporte do meu filho? Meu estômago. Vou ligar pra minha prima. Primo? Não pode levar de ônibus? Motorista não deixou, poblema renal, nasceu com isso, Roberto Santos, tenho que ir pra Laaapa e da Lapa pegar o Carbula. Ai meu Deus, ponto errado, vamos pro outro. Mão no queixo, meu filho sem comer desde ontem. Desde ontem! Passar por uma dessa em Salvador, meu filho sem comer e eu sem ter o que dá. Voz baixa, espremida. Tapa na minha cara, corte na minha cara, pobreza não é documentário. Quanto tempo em Salvador, tá na casa de quem? Minha cooperativa me ajuda, balança a cabeça negativamente. Seis semanas, vou embora semana que vem, eu to numa casa duma... Quem não tem nada faz o que em Salvador?, catei lata ontem, fiquei com noventa centavos, aí dei um kisuco com... pra ele, depois me disseram que não podia dar... Merda!, ela deu Kisuko, ele doente dos rins, merda merda merda... e eu? Eu nada. Merda merda merda. Seu ônibus, chegando no Campo Santo sabe ir pra casa? Seei, chegando no cemitero... Ônibus pára, pego o dinheiro no bolso, vergonha, tinha nem quatro reais, dois era pro ônibus ... ... ... Dou as moedas, menos de dois reais, e isso foi horrível... A porta fecha, viro pra minha casa, na mesma hora o céu dá uma pancada nas minhas costas, atravessa o peito, cai no chão, minha cabeça baixa. Menos de dois reais. Menos de dois reais. Não usei o SmartCard, merda. Trazer em casa, dar alguma coisa, depois ir pro ponto... Merda.

Tudo o que eu tenho é fútil.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Fui na Mata Escura e voltei de mãos quase vazias. Merda!...

sábado, 2 de agosto de 2008

Ontem fui no Largo da Madragoa. Daí: posto de gasolina são elementos de repulsão; mercadinhos de bairro aberto fazem-me sentir segura; ruas de paralelepípedo são muito pessoais; mini-shoppings de bairro são vulgares. Dentre outras coisas, claro.