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domingo, 5 de setembro de 2010

Literatura e cidade - Gógol e Choay

“Veja o exemplo das cidades: são mais belas e melhores as cidades que nasceram e cresceram por si mesmas, onde cada um construiu segundo o seu próprio gosto e necessidade. Mas aquelas que foram construídas a régua e compasso não passam de casernas e mais casernas...”

A citação acima é um trecho do livro inconcluso Almas Mortas, de Nikolai Gógol, publicado em 1842. Fiquei muito tentada em apenas dizer que Gógol antecipou em mais de 120 anos a dicotomia urbanística (progressismo x culturalismo) explicada por Françoise Choay em “O Urbanismo: Utopias e Realidades. Uma Antologia”. E só complementar dizendo que ele estaria concordando com a corrente culturalista de Camilo Sitte.

Massss... Tenho que ser franca. O trecho completo da fala do personagem é o seguinte:

"E o senhor é apreciador de panoramas? – perguntou Constangioglio, fitando-o com súbita severidade. – Veja lá, se começa a correr atrás de paisagens, ficará sem pão e sem paisagem. Olhe para o proveito, não para a beleza. A beleza virá por si mesma. Veja o exemplo das cidades: são mais belas e melhores as cidades que nasceram e cresceram por si mesmas, onde cada um construiu segundo o seu próprio gosto e necessidade. Mas aquelas que foram construídas a régua e compasso não passam de casernas e mais casernas... Deixe de lado a beleza e pense mais nas necessidades...”

Aí, mesmo não gostando de “régua e compasso”, ele estaria concordando mais com o funcionalismo progressista de Le Corbusier, né não?

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Eu também vou falar da Fonte Nova

[Suspiro]

Meus amores, depois de hoje, depois de ver a implosão da Fonte Nova, só vendo lixo na televisão para me curar, para rebater.

Sei lá... Algo daquele colorido me fez sombra. Mas às vezes me sopra “antes festa que indiferença”. Antes suor e cerveja que indiferença. Amores, eu não quero condenar a alegria das famílias que estavam desfrutando um domingo diferente, um espetáculo gratuito, com perdão do “gratuito”. Mas estou ressentida, confesso.

Só para tocar na questão mais evidente, estas dignas famílias não sabem que se trocou um parque aquático, um ginásio e uma pista de atletismo, todos equipamentos públicos, por um shopping? Aquela festa foi o privilégio da ignorância?

Cara, não se faz isso com uma pessoa, não se faz isso com uma cidade. Acho que vão nos culpar pela demolição da Fonte Nova do mesmo modo que culpamos os néscios que derrubaram a Catedral da Sé.

Uma associação que fiz, involuntariamente: no filme “Origem”, última superprodução de Hollywood, quando o personagem está acordando e a realidade do sonho está se desfazendo, a cena sonhada é destruída como uma demolição. Uma realidade desfeita, sem motivos coerentes e sem perspectiva de bom augúrio. Mas, no filme, era tudo um sonho.

Por aqui, nessa cidade toda de concretude, vamos deixar o mundo ir enquanto conversamos do bar. E edificamos nossas idéias enquanto o mundo rola.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

O texto abaixo eu fiz na rebordosa do TFG. Deu vontade de postar aqui.

Que me importa saber que a linha de tal arquiteto é idealista, fenomenológica, materialista ou o escambal? Que me importa saber que tal arquiteto é deconstrutivista, moderno, renascentista ou barroco? Que me importa saber que Brunelleschi veio primeiro que Le Corbusier? Que me importa saber que a zorra de uma porta de banheiro mede 60 cm e que uma bancada tem 90? À pqp com tudo isso.

Que me importa arquiteto europeu arrotando o que é arquitetura na sua mais pessoal e indefinida percepção e professor com palavras mais indefinidas insinuando que devemos inventar algo parecido? Me faça uma garapa.

O que me importa é que não há mestre que nos ensine a nos encontrar na profissão que escolhemos. Mestres, aliás, me parece que foram extintos.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Nota de repúdio ao BA-28*

"E tu sabes, Sônia, que os quartinhos de teto baixo e estreitos oprimem a alma e o espírito?" Dostoiévski, em Crime e Castigo

*BA-28 é o nome de um padrão habitacional com 28m2 que o Estado costruía.

domingo, 8 de novembro de 2009

Bienal em SP

Então fica combinado que esse é para melhor fixar na minha memória.

Tô exausta, quase não consegui pôr meu pé esquerdo no chão quando acordei nesse dia de branco. O dia pós viagem é muito dificultoso explicar, é realmente quando estou entre duas cidades, entre duas... ou melhor, entre combinações, jeitos e escolhas de ver e lidar com tudo o que está perto de mim. Mas isso é muito fugidio, feliz ou infelizmente, sei lá...

Fui lá, ver a bienal de arquitetura, que não despertou nada de novo em mim. Eu ingenuamente pensava que bienal era para trazer, pelo menos, uma discussão controversa, uma polemicasinha e tal. Mas ela me vem apoiada em quatro palavrinhas que parecem putas velhas que já serviram pra tudo quanto é trabalho. Opa!, sem querer desmerecer o meretrício.

A exposição dos holandeses pareceu ser interessante, mas ainda não li o segundo caderno para entendê-la melhor. Os alemães foram pretensiosos e, como bem observou Leo, cheios de clichês. Acho que os cinco países da África, que expuseram um projeto cada, estavam lá para não dar margem pro crítico sem criatividade dizer que só temos olhos para a Europa e blá, blá blá, e também por causa da Copa (hum.... se bem que a África do Sul não expôs... mas é tudo África, não?). Falando em Copa, a exposição dos projetos para esta estava lá, mas, na moral, não existiu. Tinha uma dúzia de painéis e uma reprodução de arena que só poderia ser para as crianças.

Eu gostei muito da exposição de uma universidade de Hong Kong (perdoe, não lembro o nome). Eles estão mostrando trabalhos interessantes sobre tipologias desenvolvidos por alunos. A exposição de arquitetos brasileiros foi convencional: dois painéis e uma maquete para cada. E os projetos que vi são coisas do tipo que saem na AU ou na Projeto. O Governo do Estado tinha um espaço apresentando projetos que, numa olhada superficial, pareceram interessantes, principalmente a Companhia de Dança de São Paulo. A Prefeitura tinha um espaço também, mas o que ela apresentou foram aquelas casinhas iguais enfileiradas. Os demais, nada... ou eu não olhei ou não se fixaram na minha memória.

São Paulo é muito sedutora e andando por lá é preciso manter o foco. De tanta sedução – exposições, roupa, comida, música, livros, coisinhas exclusivas – estou criando uma convicção: a meta de minha cidade não pode ser oferecer o que São Paulo tem, senão estamos perdidos. Simples assim e não posso esquecer.

E uma convicção que já tinha se consolidou naquela cidade. Albergues são bem mais legais que hotéis. E, como o ENEA (Encontro Nacional de Estudantes de Arquitetura) me preparou pra vida, em situações de exceção como é uma viagem, eu abdico tranquilamente do quarto com banheiro pelo clima de comunhão dos albergues. Apesar disso, o hotel em que ficamos foi interessantíssimo. Ele nos apresentou um conceito inovador, revolucionário para os mais entusiasmados, de, digamos, abrigo. Os hóspedes têm oportunidade de desfrutar não de um quarto, mas de um banheiro com cama!! Tendo apenas o vaso sanitário enclausurado, tem-se chuveiro, pia e cama no mesmo espaço, é uma maneira totalmente super-nova de pensar o que é dormir e o que é higiene! Veja você, isso podia estar na bienal!! Gênios gênios gênios.

Muitos amigos e conhecidos também foram à SP ver a bienal e outras coisas. Numa conta rápida, tinham umas 16 pessoas. Encontrei também um amigo que conheci em Granada, e, velho, muito, muito estranho ver ele em São Paulo, fora daquele contexto do intercâmbio. Parecia que ele estava no cenário errado.

Apesar de ter perto pessoas que eu gosto muito, acho que 60% do tempo preferi ficar só. Basicamente por diferenças de prioridades e/ou interesses no que ver em SP. Velho, eu estou ficando cada vez menos flexível para abrir mão do que eu quero ver numa cidade. Mas, também, de noite era fundamental eu encontrar as pessoas, pra, de repente, tomar umas.

Ah sim!, você já tinha visto fila em banheiro de livraria? Isso pra mim era coisa que não existia.